Ponte Imaginária

Ligando Ciência e Arte

Menu
  • Apresentação
  • Escritos Poéticos
  • Textos Acadêmicos
  • Deixe seu recado!
  • Vídeos – Eventos e Palestras e outros
Menu

O Gato da lâmpada

Posted on 6 de Outubro, 201923 de Maio, 2021 by Valeria Cristina P. da Silva

Minha irmã e eu pintávamos gravuras na mesa da cozinha. Era alta noite, a lua mal se abrira em uma fatia de luz e fazia um tempo quente. Havia vasta penumbra lá fora. A lâmpada que iluminava o cômodo era tênue e descia de um emaranhando de fios desorganizados, suspensos, enrolados com emendas e algumas teias de aranha. A iluminação tinha a força de uma lamparina e estava em acordo com todo o resto: as paredes sem pinturas e manchadas de gordura, o chão vermelho rachado e desbotado, a poeira que revestia os móveis igualmente vermelhos, essa cor entre outras funções escondia o desgaste do tempo na velha mobília, que era tão velha quanto vermelha.

Pintávamos em silêncio, aquele era o único cômodo onde tal atividade era possível de ser executada e apenas o ruído dos lápis de cor acetinando o papel, sendo depositados e retirados da mesa. O ar seco envolvia-nos, o vento quente entrava pela janela em lufadas silentes.

Havia algo no ar, uma angústia sem palavras fustigava as paredes da casa velha, as janelas e portas de madeira grossa rangiam agora de um modo diferente. De repente, fomos tomadas de sobressalto! Um gato preto com brilho ligeiramente ocre em sua pelagem vindo da rua acomodou-se na cozinha e permanecia invisível até que deu um urro sobrenatural e começou a atirar o corpo nas paredes da cozinha. Quanto mais urrava, mais jogava-se em piruetas pelo ar, do teto ao chão, chocando-se freneticamente entre uma parede e outra. Quanto mais o espetáculo se seguia mais ficávamos imobilizadas e os movimentos do gato gorducho e peludo tornavam-se delirantes em voos disparatados.

A cada pancada na parede caia e saltava de novo num miado enlouquecido até que o ápice dessa aparição seu deu e num salto contorcido o gato preto enroscou-se na fiação desgrenhada da cozinha e com as quatros patas abertas no ar balançava enquanto a lâmpada bruxuleava. Os ponteiros do despertador enrijeceram e o tempo parou nessa visão extraordinariamente sobrenatural.

Os pelos negros-avermelhados do gato atrás do feixe de luz formava sua sombra movente na parede e como um gênio que sai da lamparina, num último balanço ágil desvencilhou-se dos fios e voou rumo a janela aberta na noite.

Nunca mais o vimos! Só a sua sombra ficou desenhada nas paredes. Um concidadão qualquer narrou outro dia ter visto a silhueta de um grande gato negro pendurando na ponta da lua.

Category: conto

Navegação de artigos

← UMA PONTE ENTRE DOIS AZUIS: A florada dos Jacarandás
O Espelho Apaixonado →

1 thought on “O Gato da lâmpada”

  1. Rusvênia diz:
    7 de Outubro, 2019 às 4:29 pm

    Valéria! Me lembro dessa história do gato, contada por você, há tempos atrás! Que bom que se transformou nesse bonito texto. Parabéns

    Responder

Leave a Reply to RusvêniaCancel reply

Leve para casa

"Loja Poesia e Imaginário - Memorábilia e Imaginários"
© 2026 Ponte Imaginária | Powered by Minimalist Blog WordPress Theme